Se você já teve anúncio reprovado sem saber por quê, ou ouviu de uma agência que "não pode mostrar resultado" e engavetou a campanha, este texto é para resolver isso. A regra existe, é pública, e ela é mais específica do que o resumo que circula por aí.

O "antes e depois" não é proibido. E essa é a parte que quase ninguém leu

A Resolução CFM nº 2.336/2023 entrou em vigor em 11 de março de 2024 e substituiu a anterior, de 2011. A frase que mais se repete sobre ela — "agora pode antes e depois" — é verdadeira e incompleta ao mesmo tempo.

Pode. Mas a imagem de resultado só é permitida acompanhada de um conjunto: junto com as evoluções satisfatórias, precisam aparecer as insatisfatórias e as possíveis complicações do procedimento. E, quando for possível, a perspectiva para biotipos e faixas etárias diferentes, além da evolução imediata, mediata e tardia.

Leia de novo com a sua clínica na cabeça. Para publicar uma foto de resultado dentro da regra, você teria que publicar junto o caso que não deu o resultado esperado. Tecnicamente permitido. Na prática, é uma peça que quase ninguém quer fazer — e é por isso que o efeito da mudança foi o oposto do que o título sugeria.

O que mudou com a Resolução CFM 2.336/2023, em vigor desde março de 2024
PráticaSituaçãoA condição que quase ninguém cumpre
Foto de antes e depoisPermitidatem que vir com evolução insatisfatória e possíveis complicações no mesmo material
Mostrar resultado por biotipo e idadeRecomendadaquando for possível, mostrar a perspectiva para perfis diferentes
Prometer ou garantir resultadoProibida—
SensacionalismoProibido—
Comparar-se com outro profissionalProibida—
Superlativo ("a melhor", "a maior")Proibido—
Divulgação enganosaProibida—

Fontes: os dados de busca local são de compilação da BrightLocal (2026). A regra de publicidade é da Resolução CFM nº 2.336/2023 e o material de orientação do Conselho Federal de Medicina sobre publicidade médica. Consultado em 12/09/2026. Isto é leitura de marketing, não parecer jurídico — norma de conselho se confere com quem responde tecnicamente pela clínica.

Vale a leitura em seguida de por que o antes e depois some do anúncio mesmo estando dentro da regra — as duas normas permitem a foto, e o que derruba a peça está quase sempre na moldura em volta dela.

A palavra que reprova mais anúncio de emagrecimento que qualquer foto

Na conta da maioria das clínicas, o problema nunca foi a imagem. Foi o verbo.

Prometer ou garantir um resultado continua proibido, e é aí que quase todo texto de clínica escorrega sem perceber. "Emagreça até X quilos", "resultado garantido", "a melhor aplicação da cidade" — os três caem, e os três são escritos todos os dias por quem acha que está apenas sendo entusiasmado.

Superlativo é outro que passa despercebido. "A maior clínica", "o melhor protocolo", "o tratamento mais eficaz" são comparação implícita com os outros profissionais — e comparação é vedada.

O padrão que a norma desenha é curto de resumir: comunicação identificada, sóbria e educativa. Nada ali impede vender. Impede prometer.

Então o que sobra para dizer

Sobra tudo o que a clínica realmente controla, e é mais do que parece. A diferença é sair do resultado e entrar no processo.

  • O que a avaliação inclui. Quanto tempo dura, o que é medido, quem atende, o que a pessoa leva embora dela. Isso é fato, não promessa.
  • O critério de indicação. Para quem o protocolo serve e, principalmente, para quem não serve. Dizer para quem não serve é o sinal de seriedade mais barato que existe.
  • Quem aplica. Formação, registro, tempo de clínica. Autoridade é permitida; superlativo não.
  • O acompanhamento. Frequência de retorno, o que é ajustado, como a evolução é medida.
  • O que a paciente precisa saber antes. Efeitos possíveis, o que muda na rotina, o que depende dela. Educar é literalmente o que a norma pede.

Repare no que acontece com esse material: ele filtra. Anúncio que promete quilo atrai qualquer pessoa, inclusive a que nunca ia fechar. Anúncio que explica o processo atrai quem está considerando de verdade — e chega menos gente na sua recepção para você responder a mesma pergunta cinquenta vezes.

Onde a paciente procura antes de mandar a mensagem

Tem uma parte da conta que o anúncio não cobre e que decide quem ela escolhe. Antes de falar com a clínica, a pessoa confere. E o lugar onde ela confere não é o seu feed.

72% dos consumidores usam o Google para buscar informação de negócio local e 87% leem avaliações antes de decidir. No caso de emagrecimento isso pesa ainda mais, porque a decisão envolve saúde, dinheiro e uma dose grande de ceticismo — ela já viu promessa demais.

É aqui que o perfil do Google faz mais diferença que a próxima campanha. Ele responde a pergunta que o anúncio não responde: essa clínica existe, tem gente atendida, e o que dizem sobre ela? O que configurar e em que ordem está em o guia completo do Google Meu Negócio.

E vale saber que o lado da mídia também tem sua matemática. O custo de gerar interesse varia muito entre as plataformas, e o mais barato por clique nem sempre é o mais barato por paciente na cadeira — a comparação está em Meta Ads e Google Ads, qual escolher.

Três coisas que a norma não proíbe e que quase ninguém usa

Dizer para quem não serve. Contraindicação, perfil que precisa de outro encaminhamento, caso que você não atende. Nenhuma regra impede, e nada constrói confiança mais rápido com quem já foi enganada antes.

Mostrar o processo em vez do fim. A sala, a preparação, a conversa de avaliação, o retorno. É conteúdo permitido, é o que a norma chama de educativo, e é o que responde a dúvida real de quem nunca aplicou.

Explicar o que acontece depois. Frequência, ajuste de dose, o que muda na rotina, o que depende dela. Esse material sustenta a renovação do protocolo — que é onde a clínica ganha dinheiro de verdade, e que nenhum anúncio de primeira aplicação resolve sozinho.

O gargalo que a lei não causa, e que custa mais caro

Vale separar as duas dores, porque elas se confundem. A norma decide o que o anúncio pode dizer. Ela não tem nada a ver com o que acontece depois que a pessoa manda a mensagem — e é ali que a maior parte do dinheiro se perde.

E o tamanho desse buraco está medido, fora da nossa casa: num levantamento com 939 empresas entre 2025 e 2026, apenas 23% respondem um contato em até 5 minutos e 42% levam mais de 24 horas — com a taxa de fechamento caindo de 32% para 12% entre um cenário e outro (estudo de tempo de resposta da Optifai, consultado em 13/09/2026).

Quarenta e sete horas é o tempo médio até a primeira resposta nesse levantamento. Para quem procurou uma clínica no Instagram num domingo à noite, quarenta e sete horas é outra semana — e outra clínica.

Se a sua clínica anuncia e sente que "não converte", a primeira medição não é no anúncio. É no relógio: quanto tempo, em média, leva da mensagem recebida até a primeira resposta humana. Quem faz essa conta costuma descobrir o problema em quinze minutos.

O checklist antes de subir a campanha

Cinco perguntas. Se alguma resposta for não, o anúncio volta para a mesa antes de gastar verba.

  1. O texto promete ou garante algum resultado, em quilos, prazo ou adjetivo?
  2. Tem superlativo ou comparação com outra clínica, mesmo indireta?
  3. Se há imagem de resultado, ela vem com o conjunto que a norma exige?
  4. O material educa sobre o processo, ou só empolga?
  5. Quem responde o Direct sabe que a campanha subiu e está disponível no horário em que ela roda?

A quinta é a que ninguém coloca em checklist de anúncio, e é a que mais decide. Campanha que roda à noite com recepção que responde às nove da manhã está comprando interesse para entregar ao concorrente.

A regra é mais permissiva do que a fama dela e mais exigente do que o resumo que circula. Antes e depois é permitido dentro de um conjunto que quase ninguém quer publicar. Promessa de resultado, superlativo e comparação seguem fora, e são eles que derrubam a maioria dos textos.

O que sobra — processo, critério, quem aplica, o que a pessoa precisa saber — não é o prêmio de consolação. É o material que atrai quem decide e afasta quem só ia ocupar a agenda. E quando ele estiver pronto, o próximo ponto a olhar não é o criativo: é quanto tempo a sua clínica leva para responder.